Uma das características que separa a internet dos demais meios de comunicação é a atemporalidade, enquanto meios como a televisão e o rádio transmitem informações recentes – notícias – a internet é atemporal, todo conteúdo já postado online ficará disponível 24h por dia para ser acessado por qualquer um, tenha ele sido publicado há cinco minutos ou há 10 anos.
Porém essa atemporalidade se modificou em dois momentos, fazendo com que cada vez mais os conteúdos antigos ou pouco atraentes sejam trazidos até nós como algo em alta ou mesmo relevante, mesmo não sendo. A primeira grande mudança ocorrida nas diversas redes sociais foi quando conteúdos antigos começaram a ser trazidos a nós novamente quando eram “reativados”, ou seja, quando algum usuário, com o qual estamos conectados, interagia com determinado conteúdo, fazendo uma postagem de três anos aparecer em nosso feed logo após a uma foto recém postada. No início essa “reativação” gerava um certo problema, pois muitos ficavam online full time, muitas vezes não tendo tempo de checar se determinado conteúdo eraou não recente, ou mesmo real e compartilhava tal conteúdo como sendo recente, seja uma reportagem, pessoa desaparecida ou flagra de alguma ato criminoso, assim muitas hoax, vídeos e imagens que já caducaram voltavam a ser a novidade do momento. Redes como o Facebook e o Instagram “reativam” constantemente conteúdos antigos, basta um usuário interagir com algum conteúdo – curtir, comentar, responder um comentário – que imediatamente outras pessoas receberão em seus feeds a notificação de “fulano curtiu uma foto” ou mesmo a foto aparecerá como opção no feed de descobertas do instagram. E mesmo que muitas marcas e sites sejam beneficiados por essa reativação de conteúdos mais antigos, muitas vezes esses conteúdos que voltam a circular já se tornaram tão defasados, que anúncios de busca por uma criança desaparecida continuam sendo recompartilhados mesmo depois de a criança já ter sido encontrada, devolvida a família, se tornado adulta, casado e tido filhos.
A segunda grande mudança, por assim dizer, ocorreu quando os algoritmos começaram a ditar o que queremos ou não ver em nossas redes sociais com base em nossas interações, sejam elas positivas, ou negativas.

Algorítimos e a carência das redes sociais
Ainda que essa atemporalidade seja uma característica intrínseca do meio Internet, existem ainda elementos que tornam a “linha do tempo” ainda mais confusa. Faça um teste e busque alguma notícia no Google, mesmo sendo um fato recente, o buscador irá mostrar resultados de acordo com o o sistema dele julga relevante, baseado nos cookies do seu navegador e em outras variantes, não levado em consideração data de publicação das notícias. É necessário que você filtre os resultados da buscar para receber apenas as mais recentes e mesmo assim receberá uma ordem aleatória de notícias postadas no período selecionado, novamente baseada na “relevância” do buscador.
Após diversas mudanças, atualmente, as principais redes sociais nos entregam apenas conteúdos que eles acreditam ser relevantes, os algorítimos “aprendem” sobre o seu comportamento nas redes sociais e tentam sempre mostrar apenas conteúdos que sejam relevantes de acordo com o conteúdo previamente acessado. Faça novamente um teste, abra o aplicativo do Instagram e busque uma hashtag que você nunca tenha interagido antes, por exemplo #fitness, depois de alguns minutos poderá observar que a aba de descobertas (lupa) terá diversos novos conteúdos sugeridos a vocês relacionados a essa hashtag.
Agora faça um novo teste, fique uma semana sem interagir com uma pessoa que aparece constantemente na sua linha do tempo no facebook, ao mesmo tempo busque alguém com que não fala há anos e interaja com uma ou duas publicações recentes da pessoa. Sabe o que acontecerá? Ao final dessa semana a primeira pessoa irá quase desaparecer do ‘feed de notícias’ enquanto que você será bombardeado com cada movimento da segunda.
Gosto de dizer que as redes sociais são carentes e por isso tentam nos agradar constantemente, então se você demonstrar interesse por um novo assunto, as redes sociais vão tentar ao máximo trazer conteúdos sobre esse determinado assunto, apenas para te agradar.
O problema é que em época de fakenews e do aumento da malícia das pessoas para manipular conteúdos, muitas vezes ao interagirmos com um conteúdo que não aprovamos, acabamos sendo soterrados por uma enxurrada de links e postagens sobre este conteúdo, ou seja, quando você interage com uma postagem, por exemplo comentando que o conteúdo da publicação é incorreto, mentiroso ou mesmo demonstrando sua insatisfação com a publicação de tal conteúdo, essa mesma postagem irá aparecer para todas as pessoas que têm contato com você, ou seja, ao reagir com um simples “grr”, comentar que a notícia é falsa, ou mesmo compartilhando pedindo ajuda para denunciar, você está não só “reativando” o conteúdo, mas também aumentando e muito a relevância e o alcance dessa publicação negativa. E não obstante, você também está dizendo ao algoritmo que deseja receber mais conteúdos como aquele. Isso acaba gerando um ciclo vicioso de você recebendo conteúdo que não gosta e ao mesmo tempo aumentando o alcance dele sempre que demonstra seu descontentamento.
Cientes disso, muitas pessoas acabando reativado conteúdos antigos seja com interações ou mesmo repostando eles como algo novo, apenas por achar que seria interessante ver aquele conteúdo ficar em voga novamente (vulgo “ver o circo pegar fogo”).
Chamem Dr. Brown!
Quando se trata de internet, não adianta chamarmos o Dr Emmett Brown para nos trazer de volta para o futuro, a internet nasceu e cresceu sem uma linha temporal linear. Ainda que essa atemporalidade muitas vezes cause confusão a algumas pessoas e faça com que conteúdos antigos sejam compartilhados como notícias recém saídas do forno, cabe apenas aos usuários ter o bom senso de buscar e se informar. Pois se depender da internet, não sairemos do passado nem com um Delorean.
Há solução? Sim, diversas, a primeira é ter o famoso sangue de barata e apenas ignorar; você também pode ocultar o conteúdo de páginas e pessoas específicas; deixar de seguir aquele amigo tóxico; ou mesmo apelar para extensões para o navegador que ocultem conteúdos específicos, como política, spoilers de series e filmes ou mesmo BBB. O que não vale é continuar dentro de um ciclo vicioso que aumenta o alcance de publicações que nem deveriam existir. Sem contar o incomodo de continuar vendo conteúdos que te desagradam. Busque, leia, se informe.