E começa junho, o mês do orgulho LGBTQIAPN+ e queria contar um pouco sobre minha vida, posso?
Sou da época que nossa sigla tinha apenas três letras (GLS), eu cresci acompanhando sua evolução. Lembro quando mexeram um pouco e ela ganhou uma letra (LGBT) e depois disso cada vez mais letras foram adicionadas para incluir cada vez mais pessoas.
Mas na minha época eram apenas 3 letras, das quais eu não sabia bem o que significavam, só lembro que se uma menina usasse blusa larga invés de ajustada na cintura era taxada de lésbica, se cortasse o cabelo curto? Lésbica! Homem de camisa rosa? Viado! Ué, mas nem tinha V na sigla…? Era uma época confusa em que nem na internet se encontrava as respostas, e olha que comecei a fuçar os 4 cantos da via digital ainda aos 10 anos, já sabia muito bem como obter respostas, mas na época nem todas estavam certas, então geralmente nossas perguntas eram respondidas de fato por pessoas com mais vivência de mundo, mas mesmo essas pessoas nem sempre estavam corretas e muitas vezes nos geravam mais dúvidas dos que esclarecimentos.
Lembro quando tinha uns 14 anos, hoje tenho 32 (33 em novembro), lembro quando estava apenas eu e ela, eu queria me aproximar, sem sequer saber o motivo, ela queria que eu me aproximasse, por um momento nos duas nos olhamos e… Os sons de passos fizeram ela enfiar um grande pedaço de pizza na boca, preenchendo qualquer espaço que poderia haver entre o céu da boca e sua língua, eu não sabia o que tava sentido ou o que aquilo significava, ela sabia, eu sabia que ela sabia, mas não queria perguntar. Que sentimento era aquele? Anos se passaram e aquele momento adolescente atrapalhadamente fofo e engraçado sumiu das minhas memórias.
Somente aos 20 anos finalmente entendi o que significava o que senti naquele momento, mas então, se eu sentia aquilo, o que eu era?
Os “mais vividos” deram um nome de 2 letras, mas a definição para essa duas letras não enquadrava tudo o que eu senti ao longo da vida por diferentes pessoas. Será que apenas aquelas duas letras iam me definir?
Bi me lembra binário, sim ou não, homem ou mulher. E foi justamente esse significado que me disseram que era o verdadeiro, algo binário, homem ou mulher, um significado meio limitante, afinal não tinha apenas homens e mulheres. E então me apresentaram um novo conjunto de letras: Pan. Vi essas 3 letrinhas serem deturpadas de tantas formas ao longo dos anos, mas lembro da primeira definição que ou vi dela: é amar/gostar, sem olhar a quem, você apenas gosta, independente do corpo ou aparência. Na época soou um tanto poético e filosófico e ali eu entendi como me sentia, o que eu sentia, o que eu senti aos 14 anos, o que eu realmente era.
Hoje em dia consigo compreender que algumas definições que me foram ditas estavam muito erradas, mas elas foram parte da minha jornada.
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Há algum tempo atrás tentei contar essa minha jornada em uma rede social e vi que muitos jovens não compreendem como os anos foram cruéis com os que vieram antes deles, como a jornada de descoberta de alguns foi confusa, turbulenta e estranha. Então preferi esperar para recontar essa jornada hoje para vocês.
Já que na minha jornada não tem apenas letras e seus significados, por causa da minha aparência quando mais nova, eu sempre fui muito excluída, então o medo de exclusão e não pertencimento é algo que me afeta e me fere até hoje e quando tentei contar sobre essa minha jornada pela primeira vez fui atacada e hostilizada e excluída, justamente por causa da falta de compreensão de que os tempos eram outros, bem como as informações e as pessoas antigamente eram outras.
Hoje em dia é fácil encher as redes sociais de bandeirinhas, mas nas ruas nos sabemos o que já passamos e ainda passaremos.