Dirigido por Sam Esmail, o filme conta a história de uma família que vai passar férias no interior e ao contrário da clássica comédia romântica em que todos se reconectam emocionalmente por estarem longe da tecnologia e da cidade grandes, em “O Mundo depois de Nós” a família terá é que encarar um apocalipse tecnológico.
O trailer resume bem a história do filme, uma família classe média padrão dos EUA resolver alugar uma casa isolada da cidade para tirar férias, no entanto ao chegarem no lugar todos os aparelhos eletrônicos começam a apresentar problemas e no meio da noite duas pessoas chegam se dizendo os donos da casa, é nesse momento que o caos começa na vida dessa família.
Crítica sem Spoilers
O filme se vende como um filme de suspense e principalmente ação, quanto na verdade é um mistura de suspense com drama e crítica social, a trilha sonora inclusive tem papel chave nisso, sempre deixando o telespectador tenso e alerta, quase flertando com o gênero de terror, mesmo em cenas mais descontraídas.
O filme é um prato cheio para os conspiracionista de plantão, ainda mais por causa de quem está por trás desse longa, como a produtora Higher Ground, fundada pelo casal Michele e Barack Obama, se envolveu no projeto do filme em 2022, Barack estava especialmente envolvido no filme, fornecendo notas valiosas e detalhadas sobre o roteiro. Essa informação inclusive dá a entender que de certa forma os acontecimentos do filme são passíveis de acontecerem na vida real.

De modo geral é um filme lento, confuso e com final um pouco frustrante, no entanto, quem consegue entender a mensagem principal do filme percebe que é uma história até bastante necessária de ser contada, mesmo que tenha sido contada de forma tão confusa e tediosa.
Crítica com SPOILERS
Esse filme não é o que você pensa, apesar de, como dito acima, dar margem para que o público entenda o filme como um alerta para um possível cyber ataque terrorista, no entanto ele é também, e principalmente, uma crítica social a algumas pautas bastante pertinentes para a realidade norte americana.
No filme temos uma família de comercial de margarina, os Sandford, que tirou férias e tem suas férias interrompidas por estranhos acontecimentos e as coisas pioram quando um homem e sua filha batem à porta dizendo que a casa alugada pelos Sandford é na verdade deles dois, os Scott. A partir desse momento o enredo do “cyber terrorismo” é mesclado com diversas críticas sociais, com Julia Roberts interpreta Amanda, a personagem é a perfeita “karen”, sendo racista, narcisista, mimada e muito mais adjetivos negativos. A primeiro momento a atitude dela é até compreensível após dois estranhos chegarem no meio da noite sem documentos e se dizendo donos da casa que ela alugou, mas depois as atitudes dela não são nada justificáveis, chegando ao ponto que o único momento da trama em que ela é útil, invés de apenas beber vinho, é dando chilique e gritando.

Para piorar Clay, personagem de Ethan Hawke, marido de Amanda, é o perfeito “Kevin”, um marido passivo, submisso e igualmente preconceituoso como sua esposa, sendo inclusive protagonista de uma das cenas que mais me deixou nervosa, já que ao encontrar uma mulher pedido ajuda em espanhol ele fica deveras nervoso e surta, arracando com o carro e abandonando ela na estrada, inclusive essa cena tem praticamente um propósito que é demonstrar como esse personagem é despreparado para a vida e xenofóbico, já que a outra informação passada nessa cena podia ter sido entregue de outra maneira.
O filme tinha tudo para ser um ótimo suspense, no entanto ao tentar mesclar teorias conspiracionistas com temas tão delicados como preconceito e conservadorismo, o filme se torna uma mistura dos episódios “Hino Nacional” (E01T01) e “Black Museum” (E06T04) da serie Black Mirror com pitadas do filme “Corra” e um bocado de “Donnie Darko” e acaba se tornando uma sátira mal feita ao clássico perfil da família norte americana conservadora, narcisista, mimada e limitada.

O filme em si não é dos piores, ele te faz pensar tanto no enredo do cyber ataque e como não sabemos nos virar sem as atuais tecnologias como GPS, celular e internet; ao mesmo tempo que faz severas críticas ao “cidadão de bem”, no entanto a história é contada de forma lenta, com diversas cenas desnecessárias (cena da dança, estou falando de você), e mesmo que a história se arraste, o filme te deixa tenso a todo momento, tanto pelos cortes de uma câmera em algumas cenas, quanto pela trilha sonora que simplesmente te deixa alerta do início ao fim.
Explicando o final
Como dito acima, o filme flerta com Donnie Darko e talvez algumas pessoas precisem que o final seja explicado.
Em resumo, o EUA está sofrendo um ataque terrorista para ter o Governo desestabilizado como explicado pelo personagem de Mahershala Ali, o G. H. Scott e é isso, o país está sob ataque e acabou, apenas quem está fora das grandes cidades é quem se salvou, como os Sandford, os Scott e o vizinho conspiracionista deles.
No entanto a cena final é apenas a cereja do bolo na crítica social sobre como as pessoas, e principalmente os jovens, estão tão conectados a todo momento que elas ignoram os sinais ao seu redor e ficam apenas olhando para as telas, como foi o caso da personagem Rose, que ignora o fato de estar em um bunker que pode salvar a todos, mas prefere sentar e ver o final da série F.R.I.E.N.D.S. que é o chantilly por cima da cereja do bolo, já que a série, que envelheceu mal, tem personagens com o mesmo perfil de comportamento da família Sandford: limitados, preconceituosos, predatórios e sem noção, ou seja, o final do enredo do cyberatque é na cena em que Amanda e Ruth seguram a mão uma da outra vendo que o mundo está acabando, enquanto que a cena final antes dos créditos tem como papel encerrar a parte do roteiro com críticas sociais.